Física

A Lua está caindo

Órbita é queda com velocidade lateral suficiente para errar o planeta.

Quadro do vídeo “A Lua está caindo” Vídeo pronto — em breve no canal
4:30 de vídeo 1 simulação 2 shorts

A pergunta

Por que a Lua não cai na Terra? As respostas mais comuns são que ela está longe demais, ou que lá em cima não tem gravidade. As duas estão erradas. A gravidade da Terra na distância da Lua é bem real — 2,70 milímetros por segundo ao quadrado — e é a única coisa que age lá.

A resposta certa é mais estranha e mais simples: a Lua está caindo. Agora, o tempo todo. A cada segundo ela cai 1,36 mm em direção à Terra, há bilhões de anos. O que ela não faz é chegar.

O canhão de Newton

Newton desenhou a explicação num livro — o Tratado do Sistema do Mundo, publicado em 1728 —, e é um dos melhores desenhos da física. Ponha um canhão no alto de uma montanha muito alta, acima do ar, apontado na horizontal. Atire.

A bala sai reta e cai: percorre alguns quilômetros e bate no chão. Mais pólvora, e ela vai mais longe. Só que a Terra é redonda: enquanto a bala avança, o chão vai se afastando dela, curvando para baixo. A cada tiro a bala cai o mesmo tanto por segundo, mas avança mais — e o chão foge mais.

Até um tiro em que a bala cai exatamente no ritmo em que o chão foge. Ela nunca encosta: dá a volta e vem acertar o canhão por trás.

Disparos integrados passo a passo com a gravidade GM/r². Aperte os botões em ordem — Cai, Órbita rasante, Elipse, Fuga — e veja a mesma física produzir as quatro trajetórias.

A velocidade que erra o planeta

Dá para calcular essa velocidade com a mesma imagem do episódio. Em um tempo curto , a bala cai

Enquanto isso ela avança na horizontal, e o chão — um círculo de raio — se afasta da reta horizontal por . Para a bala nunca encostar, as duas coisas precisam ser iguais:

O tempo cancela: vale a cada instante, e por isso vale para sempre. Com , é o mesmo que . Para uma órbita rasante:

Órbita não é uma coisa que se faz subindo. É uma coisa que se faz indo rápido para o lado.

Acima dessa velocidade a trajetória vira uma elipse, que sobe do lado oposto do planeta e volta ao ponto de partida. E a vezes a velocidade circular — 11,2 km/s na superfície — a energia de movimento paga toda a “dívida” gravitacional, , e a bala não volta mais.

A conta da Lua

Volte para a Lua. Se a gravidade da Terra desligasse agora, a Lua sairia pela tangente, em linha reta. Compare onde ela realmente está um segundo depois com onde essa reta estaria: a diferença é a queda.

A Lua dá uma volta de raio km em dias. Para fazer essa curva, ela precisa de uma aceleração apontada para o centro de

e em um segundo isso dá uma queda de 1,36 mm.

A reta tangente é a Lua sem gravidade; o arco é a Lua de verdade. A queda real em um segundo é tão pequena que o desenho precisa ampliá-la — e diz quantas vezes.

O teste que Newton fez

Agora a parte em que a física nasce. A Lua está a uns 60,3 raios terrestres do centro da Terra — vamos arredondar para 60. Se a gravidade cai com o quadrado da distância, a aceleração lá deveria ser vezes menor que aqui:

É o mesmo número que a órbita exige. A mesma lei, com a mesma conta, para a maçã que cai aqui e para a Lua que dá a volta lá em cima. Antes disso eram dois assuntos separados — coisas que caem e coisas que giram. Uma linha de conta transformou o céu em física.

A gravidade daqui dividida por 60², contra a aceleração que a órbita de 27,3 dias exige.

A estação espacial

Isso desfaz a confusão mais comum sobre astronautas flutuando. A estação espacial voa a uns 400 km de altura, e lá a gravidade vale

— 88,5% da gravidade do chão. Praticamente nada mudou. O astronauta não flutua por falta de gravidade: ele flutua porque está caindo, e a estação está caindo junto, na mesma taxa. É a sensação do elevador quando arranca para baixo, ou do primeiro segundo de uma montanha-russa — o estômago sobe porque o chão parou de empurrar.

Na estação isso não acaba nunca, porque ela está sempre errando o planeta a uns 28.000 km/h, uma volta a cada 92 minutos. O nome certo daquilo não é “ausência de peso”: é queda livre permanente.

A Lua está se afastando

E a palavra “eterno” não serve para órbita nenhuma. As marés que a Lua levanta na Terra freiam a rotação do nosso planeta, e o que a Terra perde de giro vai para a Lua como energia de órbita. Ela se afasta uns 3,8 cm por ano — medidos com laser, mirando os refletores que as missões Apollo deixaram lá. Em troca, o dia terrestre fica mais longo, cerca de dois milissegundos por século.

Os números do episódio

O que o vídeo diz Valor De onde sai
a Lua cai, por segundo 1,36 mm ½·(4π²r/T²)·(1 s)²
órbita rasante 7,91 km/s √(GM/R)
… em km/h 28.500 km/h × 3,6
a Lua, em raios terrestres 60,3 384.400 km / 6.371 km
gravidade lá, prevista 0,00269 m/s² g / (60,3)²
aceleração da Lua, medida 0,00272 m/s² 4π²r/T², T = 27,32 dias
gravidade a 400 km de altura 88,5% (R/(R + 400 km))²
velocidade da estação espacial 27.600 km/h √(GM/(R + 400 km))
a Lua se afasta, por ano 3,8 cm medido com laser (refletores das missões Apollo)

Desafios

Desafio 1 · aquecimento

Com que velocidade a Lua anda na órbita dela? Compare com a velocidade de uma órbita rasante.

Ver a solução

1,02 km/s — bem mais devagar que os 7,9 km/s de uma órbita rasante. Longe da Terra a gravidade é fraca, e basta pouca velocidade lateral para errar o planeta: diminui com a distância.

Desafio 2 · pede uma ideia

Os satélites de GPS orbitam a uns 20.200 km de altitude. Quanto tempo eles levam para dar uma volta?

Ver a solução

km, e 11,97 horas: duas voltas por dia, que é o que torna o sistema previsível.

Desafio 3 · pede uma ideia

Um satélite geoestacionário dá uma volta exatamente no tempo em que a Terra gira (um dia sideral, 23 h 56 min) e por isso parece parado no céu. A que altura ele precisa estar?

Ver a solução

Da terceira lei, 42.160 km do centro, ou seja, uns 35.790 km de altitude. Não há escolha: para ficar parado no céu, só existe essa altura.

Desafio 4 · pede várias

Mostre que, para escapar da gravidade a partir de uma órbita circular, basta multiplicar a velocidade por .

Ver a solução

Numa órbita circular, . Para escapar, a energia específica precisa chegar a zero: . Logo — de 7,9 km/s para 11,2 km/s na superfície. Repare que a direção do disparo não importa: qualquer bala com essa energia escapa, desde que não bata no chão no caminho.

Para ir além

  • O “teste da Lua” aparece no livro III dos Principia (1687). Newton contou, mais tarde, que tinha feito uma versão da conta já em 1666, com dados imprecisos que não fechavam tão bem.
  • A distância da Lua é medida hoje com precisão de milímetros, cronometrando pulsos de laser refletidos pelos espelhos deixados pelas missões Apollo 11, 14 e 15.
  • A mesma física — energia de movimento contra energia de posição — é o assunto de Afinal, o que é energia?.

No laboratório

As figuras deste episódio, em tamanho grande e com todos os controles.

Shorts deste episódio

Cortes verticais com a mesma narração — e as provas sem palavras que acompanham o tema.

1:49

A Lua está caindo

Em breve no canal

0:48

O astronauta não flutua, ele cai

Em breve no canal

Para assistir depois

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