Sempre existe um lugar sem vento
Uma esfera não admite campo tangente contínuo sem zeros — e uma rosquinha admite.
A afirmação
Neste exato momento existe pelo menos um ponto na superfície da Terra onde o vento horizontal é zero. Não é estimativa nem probabilidade: é uma garantia, vale para qualquer instante, em qualquer planeta, com qualquer clima — e a demonstração não olha nenhum dado de vento.
O teorema só pede duas coisas:
- O vento é tangente à superfície. Vento horizontal não entra no chão nem sai para o espaço.
- O vento varia de forma contínua. Não salta de norte para sul entre dois pontos vizinhos.
Em linguagem de matemático: chame de a superfície da esfera de raio 1 e de a seta do vento no ponto .
A condição é o “tangente”: num globo de raio 1, o vetor aponta para fora, e a seta do vento é perpendicular a ele. Com essas duas hipóteses, é impossível ventar em toda parte ao mesmo tempo.
Pentear uma bola
O nome que os matemáticos deram a isso é o teorema da bola cabeluda. Imagine uma bola coberta de pelos e tente penteá-los todos deitados — nenhum apontando para fora, nenhum corte de redemoinho. Cada pelo deitado é uma seta tangente; penteado sem corte é continuidade. Você vai desistir, e não é falta de jeito.
Penteie tudo para o mesmo lado, girando em volta de um eixo, e os dois polos viram redemoinhos. Penteie do polo norte para o sul, e o norte fica com um espinho de pelos saindo em todas as direções, enquanto o sul vira um ralo. Empurre o defeito para outro lugar: ele anda, muda de forma, às vezes se divide em dois — e não some. É por isso que todo mundo tem pelo menos um redemoinho no cabelo.
O índice de um ponto parado
Para entender por que o defeito não some, é preciso dar um número a ele. Desenhe um laço pequeno em volta do ponto parado e ande uma vez em volta dele, no sentido anti-horário, olhando a seta do vento. A seta gira enquanto você anda. Como ela volta exatamente à direção de partida, o total que ela girou é um número inteiro de voltas. Esse número é o índice do ponto:
em que é o ângulo da seta e é o laço. Os quatro defeitos básicos, no plano, em coordenadas polares , :
| campo | quem é | ângulo da seta | índice |
|---|---|---|---|
| espinho (tudo saindo) | |||
| ralo (tudo entrando) | |||
| redemoinho | |||
| sela | |||
| defeito duplo |
Espinho, ralo e redemoinho parecem diferentes, mas para a seta é tudo a mesma coisa: ela dá uma volta junto com você. A sela gira ao contrário. O defeito duplo é o que aparece quando dois defeitos de se encostam.
O índice tem uma propriedade decisiva: ele é inteiro e não pode mudar aos pouquinhos. Se você deforma o laço sem passar por cima de nenhum ponto parado, as setas no caminho mudam continuamente, e o total de voltas também deveria mudar continuamente — mas um inteiro que muda continuamente fica parado. Daí sai a regra que a simulação mostra: o número de voltas num laço grande é a soma dos índices de tudo o que está dentro dele.
A rosquinha pode
Agora a parte que mostra que isso não é sobre pelo: numa rosquinha, dá. Penteie os pelos de um pneu de bicicleta ao longo do pneu, todos seguindo o anel — nenhum redemoinho, nenhum espinho, nenhum ponto parado. Em volta do tubo também funciona, e em espiral também.
Mesmos pelos, mesma regra, resultado oposto. A diferença não é o tamanho nem a forma: é o buraco.
Por que a esfera não pode
O argumento do vídeo, passo a passo.
Primeiro passo: aperte o laço. Pegue um laço na esfera e conte as voltas da seta ao longo dele. Se não houver nenhum ponto parado do lado de dentro, aperte o laço até ele virar um ponto. Perto do fim, o laço é minúsculo e a seta é quase constante nele: zero voltas. Como a contagem é inteira e não pode mudar continuamente, ela já era zero desde o começo.
Segundo passo: os dois lados. Na esfera, um laço — o equador, digamos — separa a bola em duas calotas, e dá para apertar o mesmo laço para os dois lados. Só que “contar as voltas da seta” exige uma régua para medir ângulos, e não existe uma régua só que sirva para a esfera inteira. Cada calota usa a sua: a projeção estereográfica a partir do polo oposto, que achata a calota inteira num plano.
A primeira projeta a partir do polo sul e enxerga toda a calota norte; a segunda faz o contrário. No equador as duas valem, e dá para comparar. Escreva o vento ali como . Na carta do norte, o componente que aponta para o norte vira “para dentro” (em direção ao centro, que é o polo norte); na carta do sul, ele vira “para fora”. Feita a conta, os ângulos e da mesma seta nas duas cartas, no ponto de longitude , obedecem a
Dê uma volta no equador: cresce , então a soma dos dois ângulos cresce — duas voltas inteiras.
Terceiro passo: a contradição. Se o vento não parasse em lugar nenhum, o primeiro passo daria (nada dentro da calota norte) e (nada dentro da calota sul). Mas as duas somam 2. Contradição — a menos que exista ponto parado.
A rosquinha escapa porque o laço que dá a volta no buraco não encolhe para lugar nenhum — o buraco está no meio. E na rosquinha existe uma régua única que serve para tudo: “ao longo do anel” e “em volta do tubo” são direções definidas em todos os pontos. É exatamente esse par de direções que dá o penteado sem defeito.
O primo: Borsuk–Ulam
Existe um primo desse teorema com um enunciado que parece invenção: neste instante, existem dois pontos exatamente opostos da Terra com a mesma temperatura e a mesma pressão atmosférica. Sempre existem. Chama-se teorema de Borsuk–Ulam (conjecturado por Stanisław Ulam e provado por Karol Borsuk em 1933), e o preço é o mesmo: continuidade, e mais nada.
Uma grandeza, em três frases. Pegue a diferença de temperatura entre um ponto e o seu oposto,
Ela é ímpar: no ponto oposto, , a mesma diferença com o sinal trocado. Se em algum lugar é positiva, no ponto oposto ela é negativa, e uma grandeza contínua que é positiva num lugar e negativa em outro passa por zero no caminho. É o teorema do valor intermediário, vestido de planeta.
Duas grandezas ao mesmo tempo. Para temperatura e pressão juntas, o argumento é o do laço outra vez. Junte as duas diferenças numa seta do plano,
Se nunca se anulasse, a direção dela no equador seria uma seta que, a cada meia volta, aponta exatamente para o lado oposto (). Meia volta no laço, então, é um número ímpar de meias voltas da seta; a volta inteira é um número ímpar de voltas — nunca zero. Mas o equador é a borda do hemisfério norte, onde também não se anula, e apertando o laço até um ponto a contagem teria de ser zero. Contradição: em algum ponto , isto é, e .
Onde isso importa
Os olhos dos ciclones. Os pontos de vento zero não são detalhe: são os centros de rotação. Todo sistema de ventos numa esfera é obrigado a ter olhos. O teorema não diz onde eles estão nem quantos são — diz que a conta, feita com sinal, fecha em dois. Ciclones e anticiclones são redemoinhos (índice ); entre eles aparecem os colos, regiões de sela onde o vento entra por dois lados e sai por outros dois (índice ). Em qualquer mapa global de vento,
desde que os pontos parados sejam desses tipos simples.
A antena que não consegue. Longe de uma antena, o campo elétrico da onda é perpendicular à direção em que ela viaja — ou seja, tangente à esfera de direções em volta da antena. Pelo mesmo teorema, esse campo tem de se anular em alguma direção: nenhuma antena irradia com a mesma intensidade para todo lado. O “radiador isotrópico” das contas de engenharia é uma referência imaginária; toda antena real tem pelo menos uma direção morta. Não é limitação de projeto, é proibição topológica — todo projetista contorna, ninguém resolve.
Por que reatores de fusão são rosquinhas. Num tokamak, o plasma é preso por um campo magnético cujas linhas correm rente à superfície do plasma. Onde o campo zera, o plasma escapa. Uma superfície esférica teria obrigatoriamente um ponto assim; uma rosquinha, não. É uma das razões de o formato ser um toro.
Repare no que aconteceu: dá para afirmar um fato sobre o clima da Terra sem consultar uma única medição. A forma do planeta já proibia o contrário. Em algum lugar, agora, está tudo parado.
Os números do episódio
| O que o vídeo diz | Valor | De onde sai |
|---|---|---|
| soma dos índices de qualquer vento na esfera | 2 | característica de Euler da esfera |
| … na rosquinha | 0 | por isso dá para pentear sem defeito |
| cubo: vértices − arestas + faces | 2 | 8 − 12 + 6 |
| icosaedro | 2 | 12 − 30 + 20 |
| bola de futebol | 2 | 60 − 90 + (12 pentágonos + 20 hexágonos) |
| rosquinha de dois buracos | −2 | cada buraco a mais tira 2 |
| pares de pontos opostos com mesma temperatura e pressão | ≥ 1 | Borsuk–Ulam |
Desafios
Desafio 1 · aquecimento
Qual é o índice, na origem, do campo ?
Ver a solução
Em coordenadas polares, : o ângulo da seta é . Uma volta sua, duas voltas da seta no sentido contrário — índice . Em complexos, é .
Desafio 2 · pede uma ideia
Um mapa global do vento mostra 4 ciclones e 3 anticiclones, e todos os outros pontos parados são selas. Quantas selas há?
Ver a solução
Ciclones e anticiclones têm índice , selas , e a soma tem de dar 2: , então .
Desafio 3 · pede uma ideia
Um cubo cabeludo tem redemoinho? E uma caneca cabeluda, com alça?
Ver a solução
O cubo tem: dá para inflá-lo até virar uma esfera sem rasgar nem colar nada, e o teorema só enxerga isso (o cubo tem ). A caneca com uma alça é, para a topologia, uma rosquinha (): existe penteado sem redemoinho nenhum.
Desafio 4 · pede várias
A esfera de dimensão 3, , pode ser penteada. Encontre um penteado.
Ver a solução
. Ele é tangente, porque , e nunca se anula, porque . O mesmo truque — girar os pares de coordenadas — penteia qualquer esfera de dimensão ímpar. Nas de dimensão par, como a nossa , sobra sempre uma coordenada sem par, e o teorema de Brouwer garante o redemoinho.
Para ir além
- O ponto fixo de Brouwer, outro parente: mexa o café sem espirrar e, quando ele parar, algum ponto do líquido está exatamente onde começou.
- O sanduíche de presunto: um único corte reto de faca divide ao meio, ao mesmo tempo, o pão, o presunto e o queijo, estejam onde estiverem. É Borsuk–Ulam uma dimensão acima.
- O mesmo aparece somando curvatura: (Gauss–Bonnet). A curvatura da esfera é também o que proíbe um mapa plano sem distorção — a história de por que nenhum mapa está certo.
- No laboratório, as cinco vistas juntas.
No laboratório
As figuras deste episódio, em tamanho grande e com todos os controles.
Shorts deste episódio
Cortes verticais com a mesma narração — e as provas sem palavras que acompanham o tema.
Dois pontos opostos, a mesma temperatura
Em breve no canal
Sempre existe um lugar sem vento
Em breve no canal
Para assistir depois
Por que nenhum mapa do mundo está certo
Na Mercator, a Groenlândia parece do tamanho da África. A África é quase catorze vezes maior.
A ideia que deu origem ao cálculo
1 ÷ 0 dá erro. 1 ÷ 0,001 dá mil. A calculadora só trava exatamente em cima do zero.
Afinal, o que é o infinito?
Qual é o maior número natural? Pense em um. Agora some um.
Em produção