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Sempre existe um lugar sem vento

Uma esfera não admite campo tangente contínuo sem zeros — e uma rosquinha admite.

Quadro do vídeo “Sempre existe um lugar sem vento” Vídeo pronto — em breve no canal
5:03 de vídeo 1 simulação 2 shorts

A afirmação

Neste exato momento existe pelo menos um ponto na superfície da Terra onde o vento horizontal é zero. Não é estimativa nem probabilidade: é uma garantia, vale para qualquer instante, em qualquer planeta, com qualquer clima — e a demonstração não olha nenhum dado de vento.

O teorema só pede duas coisas:

  1. O vento é tangente à superfície. Vento horizontal não entra no chão nem sai para o espaço.
  2. O vento varia de forma contínua. Não salta de norte para sul entre dois pontos vizinhos.

Em linguagem de matemático: chame de a superfície da esfera de raio 1 e de a seta do vento no ponto .

A condição é o “tangente”: num globo de raio 1, o vetor aponta para fora, e a seta do vento é perpendicular a ele. Com essas duas hipóteses, é impossível ventar em toda parte ao mesmo tempo.

Pentear uma bola

O nome que os matemáticos deram a isso é o teorema da bola cabeluda. Imagine uma bola coberta de pelos e tente penteá-los todos deitados — nenhum apontando para fora, nenhum corte de redemoinho. Cada pelo deitado é uma seta tangente; penteado sem corte é continuidade. Você vai desistir, e não é falta de jeito.

Penteie tudo para o mesmo lado, girando em volta de um eixo, e os dois polos viram redemoinhos. Penteie do polo norte para o sul, e o norte fica com um espinho de pelos saindo em todas as direções, enquanto o sul vira um ralo. Empurre o defeito para outro lugar: ele anda, muda de forma, às vezes se divide em dois — e não some. É por isso que todo mundo tem pelo menos um redemoinho no cabelo.

Escolha um penteado e arraste para girar. Em Deformar o penteado, o defeito anda e se divide; a soma dos índices, contada pela simulação, fica em 2.

O índice de um ponto parado

Para entender por que o defeito não some, é preciso dar um número a ele. Desenhe um laço pequeno em volta do ponto parado e ande uma vez em volta dele, no sentido anti-horário, olhando a seta do vento. A seta gira enquanto você anda. Como ela volta exatamente à direção de partida, o total que ela girou é um número inteiro de voltas. Esse número é o índice do ponto:

em que é o ângulo da seta e é o laço. Os quatro defeitos básicos, no plano, em coordenadas polares , :

campoquem éângulo da setaíndice
espinho (tudo saindo)
ralo (tudo entrando)
redemoinho
sela
defeito duplo

Espinho, ralo e redemoinho parecem diferentes, mas para a seta é tudo a mesma coisa: ela dá uma volta junto com você. A sela gira ao contrário. O defeito duplo é o que aparece quando dois defeitos de se encostam.

A seta branca anda no laço dourado. Embaixo de cada quadro, as voltas que ela já deu — no fim, o índice.

O índice tem uma propriedade decisiva: ele é inteiro e não pode mudar aos pouquinhos. Se você deforma o laço sem passar por cima de nenhum ponto parado, as setas no caminho mudam continuamente, e o total de voltas também deveria mudar continuamente — mas um inteiro que muda continuamente fica parado. Daí sai a regra que a simulação mostra: o número de voltas num laço grande é a soma dos índices de tudo o que está dentro dele.

A rosquinha pode

Agora a parte que mostra que isso não é sobre pelo: numa rosquinha, dá. Penteie os pelos de um pneu de bicicleta ao longo do pneu, todos seguindo o anel — nenhum redemoinho, nenhum espinho, nenhum ponto parado. Em volta do tubo também funciona, e em espiral também.

Mesmos pelos, mesma regra, resultado oposto. A diferença não é o tamanho nem a forma: é o buraco.

Sorteie um penteado qualquer: aparecem pontos parados, mas os índices somam 0 — e com o penteado certo, não aparece nenhum.

Por que a esfera não pode

O argumento do vídeo, passo a passo.

Primeiro passo: aperte o laço. Pegue um laço na esfera e conte as voltas da seta ao longo dele. Se não houver nenhum ponto parado do lado de dentro, aperte o laço até ele virar um ponto. Perto do fim, o laço é minúsculo e a seta é quase constante nele: zero voltas. Como a contagem é inteira e não pode mudar continuamente, ela já era zero desde o começo.

Segundo passo: os dois lados. Na esfera, um laço — o equador, digamos — separa a bola em duas calotas, e dá para apertar o mesmo laço para os dois lados. Só que “contar as voltas da seta” exige uma régua para medir ângulos, e não existe uma régua só que sirva para a esfera inteira. Cada calota usa a sua: a projeção estereográfica a partir do polo oposto, que achata a calota inteira num plano.

A primeira projeta a partir do polo sul e enxerga toda a calota norte; a segunda faz o contrário. No equador as duas valem, e dá para comparar. Escreva o vento ali como . Na carta do norte, o componente que aponta para o norte vira “para dentro” (em direção ao centro, que é o polo norte); na carta do sul, ele vira “para fora”. Feita a conta, os ângulos e da mesma seta nas duas cartas, no ponto de longitude , obedecem a

Dê uma volta no equador: cresce , então a soma dos dois ângulos cresce — duas voltas inteiras.

Terceiro passo: a contradição. Se o vento não parasse em lugar nenhum, o primeiro passo daria (nada dentro da calota norte) e (nada dentro da calota sul). Mas as duas somam 2. Contradição — a menos que exista ponto parado.

Os dois mostradores contam as voltas da seta pelas duas calotas. Mova o laço: cada contagem pula quando ele atravessa um ponto parado, e a soma não sai de 2.

A rosquinha escapa porque o laço que dá a volta no buraco não encolhe para lugar nenhum — o buraco está no meio. E na rosquinha existe uma régua única que serve para tudo: “ao longo do anel” e “em volta do tubo” são direções definidas em todos os pontos. É exatamente esse par de direções que dá o penteado sem defeito.

O primo: Borsuk–Ulam

Existe um primo desse teorema com um enunciado que parece invenção: neste instante, existem dois pontos exatamente opostos da Terra com a mesma temperatura e a mesma pressão atmosférica. Sempre existem. Chama-se teorema de Borsuk–Ulam (conjecturado por Stanisław Ulam e provado por Karol Borsuk em 1933), e o preço é o mesmo: continuidade, e mais nada.

Uma grandeza, em três frases. Pegue a diferença de temperatura entre um ponto e o seu oposto,

Ela é ímpar: no ponto oposto, , a mesma diferença com o sinal trocado. Se em algum lugar é positiva, no ponto oposto ela é negativa, e uma grandeza contínua que é positiva num lugar e negativa em outro passa por zero no caminho. É o teorema do valor intermediário, vestido de planeta.

Duas grandezas ao mesmo tempo. Para temperatura e pressão juntas, o argumento é o do laço outra vez. Junte as duas diferenças numa seta do plano,

Se nunca se anulasse, a direção dela no equador seria uma seta que, a cada meia volta, aponta exatamente para o lado oposto (). Meia volta no laço, então, é um número ímpar de meias voltas da seta; a volta inteira é um número ímpar de voltas — nunca zero. Mas o equador é a borda do hemisfério norte, onde também não se anula, e apertando o laço até um ponto a contagem teria de ser zero. Contradição: em algum ponto , isto é, e .

Curva dourada: temperatura igual à do ponto oposto. Lilás: pressão igual. Onde se cruzam, o par garantido. O globo da direita é o planeta visto por trás.

Onde isso importa

Os olhos dos ciclones. Os pontos de vento zero não são detalhe: são os centros de rotação. Todo sistema de ventos numa esfera é obrigado a ter olhos. O teorema não diz onde eles estão nem quantos são — diz que a conta, feita com sinal, fecha em dois. Ciclones e anticiclones são redemoinhos (índice ); entre eles aparecem os colos, regiões de sela onde o vento entra por dois lados e sai por outros dois (índice ). Em qualquer mapa global de vento,

desde que os pontos parados sejam desses tipos simples.

A antena que não consegue. Longe de uma antena, o campo elétrico da onda é perpendicular à direção em que ela viaja — ou seja, tangente à esfera de direções em volta da antena. Pelo mesmo teorema, esse campo tem de se anular em alguma direção: nenhuma antena irradia com a mesma intensidade para todo lado. O “radiador isotrópico” das contas de engenharia é uma referência imaginária; toda antena real tem pelo menos uma direção morta. Não é limitação de projeto, é proibição topológica — todo projetista contorna, ninguém resolve.

Por que reatores de fusão são rosquinhas. Num tokamak, o plasma é preso por um campo magnético cujas linhas correm rente à superfície do plasma. Onde o campo zera, o plasma escapa. Uma superfície esférica teria obrigatoriamente um ponto assim; uma rosquinha, não. É uma das razões de o formato ser um toro.

Repare no que aconteceu: dá para afirmar um fato sobre o clima da Terra sem consultar uma única medição. A forma do planeta já proibia o contrário. Em algum lugar, agora, está tudo parado.

Os números do episódio

O que o vídeo diz Valor De onde sai
soma dos índices de qualquer vento na esfera 2 característica de Euler da esfera
… na rosquinha 0 por isso dá para pentear sem defeito
cubo: vértices − arestas + faces 2 8 − 12 + 6
icosaedro 2 12 − 30 + 20
bola de futebol 2 60 − 90 + (12 pentágonos + 20 hexágonos)
rosquinha de dois buracos −2 cada buraco a mais tira 2
pares de pontos opostos com mesma temperatura e pressão ≥ 1 Borsuk–Ulam

Desafios

Desafio 1 · aquecimento

Qual é o índice, na origem, do campo ?

Ver a solução

Em coordenadas polares, : o ângulo da seta é . Uma volta sua, duas voltas da seta no sentido contrário — índice . Em complexos, é .

Desafio 2 · pede uma ideia

Um mapa global do vento mostra 4 ciclones e 3 anticiclones, e todos os outros pontos parados são selas. Quantas selas há?

Ver a solução

Ciclones e anticiclones têm índice , selas , e a soma tem de dar 2: , então .

Desafio 3 · pede uma ideia

Um cubo cabeludo tem redemoinho? E uma caneca cabeluda, com alça?

Ver a solução

O cubo tem: dá para inflá-lo até virar uma esfera sem rasgar nem colar nada, e o teorema só enxerga isso (o cubo tem ). A caneca com uma alça é, para a topologia, uma rosquinha (): existe penteado sem redemoinho nenhum.

Desafio 4 · pede várias

A esfera de dimensão 3, , pode ser penteada. Encontre um penteado.

Ver a solução

. Ele é tangente, porque , e nunca se anula, porque . O mesmo truque — girar os pares de coordenadas — penteia qualquer esfera de dimensão ímpar. Nas de dimensão par, como a nossa , sobra sempre uma coordenada sem par, e o teorema de Brouwer garante o redemoinho.

Para ir além

  • O ponto fixo de Brouwer, outro parente: mexa o café sem espirrar e, quando ele parar, algum ponto do líquido está exatamente onde começou.
  • O sanduíche de presunto: um único corte reto de faca divide ao meio, ao mesmo tempo, o pão, o presunto e o queijo, estejam onde estiverem. É Borsuk–Ulam uma dimensão acima.
  • O mesmo aparece somando curvatura: (Gauss–Bonnet). A curvatura da esfera é também o que proíbe um mapa plano sem distorção — a história de por que nenhum mapa está certo.
  • No laboratório, as cinco vistas juntas.

No laboratório

As figuras deste episódio, em tamanho grande e com todos os controles.

Shorts deste episódio

Cortes verticais com a mesma narração — e as provas sem palavras que acompanham o tema.

0:38

Dois pontos opostos, a mesma temperatura

Em breve no canal

2:00

Sempre existe um lugar sem vento

Em breve no canal

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