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Por que o ouro é amarelo

A cor do ouro é relatividade restrita dentro de um átomo.

Quadro do vídeo “Por que o ouro é amarelo” Vídeo pronto — em breve no canal
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Os vizinhos

Quase todo metal é cinza: ferro, alumínio, níquel, estanho, chumbo, platina, prata — todos cinza ou brancos, com brilhos ligeiramente diferentes. Dois fogem disso: o cobre, avermelhado, e o ouro, amarelo.

E o ouro é vizinho direto da prata na tabela periódica: mesma coluna, mesma família, o elétron de valência arrumado do mesmo jeito. Dois elementos que a química organiza como irmãos, com cores diferentes. A resposta não está na química. Está na relatividade de Einstein — num dos poucos lugares do dia a dia em que ela se enxerga a olho nu: numa aliança de casamento.

Cor é uma falta

Num metal, os elétrons de fora não pertencem a nenhum átomo: formam um “mar” que atravessa o material inteiro. Quando a luz chega, esse mar balança junto e reemite a luz de volta — é isso que é brilho metálico. Se o metal devolve todas as cores igualmente, ele sai cinza ou branco.

Mas alguns metais têm um degrau de energia no lugar errado. Os elétrons de um átomo só ocupam certos níveis, como degraus de uma escada; um elétron sobe de degrau se receber luz com pelo menos a energia da distância entre eles, e essa luz é engolida. A energia de um fóton e o comprimento de onda da luz estão amarrados por

Um degrau de 2,4 eV engole tudo abaixo de uns 517 nm: o violeta, o azul, parte do verde. O metal devolve a luz branca menos o azul — e branco menos azul é amarelo.

O degrau na régua do espectro, e a cor que sobra da luz branca — calculada contra a sensibilidade do olho humano, não escolhida. Desligue a relatividade e veja o ouro ficar branco.

Na prata, o degrau é maior — uns 3,7 eV — e cai em 335 nm, no ultravioleta, que o olho não enxerga. Ela devolve o visível inteiro: branca. A pergunta fica precisa: por que o degrau do ouro é menor que o da prata?

O elétron veloz

O núcleo do ouro tem 79 prótons — uma carga positiva enorme —, e os elétrons mais internos estão bem perto dela. Para não cair no núcleo, eles precisam se mover muito rápido. No modelo de Bohr, a velocidade do elétron mais interno é

em que é a constante de estrutura fina. Para o ouro:

O elétron mais interno do ouro anda a uns 58% da velocidade da luz. Nessa velocidade a física de Newton não serve mais; a relatividade diz que o elétron se comporta como se tivesse massa , com

Uns 22% mais pesado. E o raio de uma órbita de Bohr é inversamente proporcional à massa do elétron — elétron mais pesado orbita mais apertado. As camadas internas do ouro encolhem de verdade, uns 18%. Não é uma correção na terceira casa decimal: é o átomo com outro tamanho.

A velocidade do elétron mais interno cresce com o número de prótons, e o fator de Lorentz explode perto da luz. O círculo tracejado é a órbita sem relatividade; o verde, com.

O degrau que desce

O encolhimento não fica nas camadas de dentro. Ele arrasta a camada mais externa — a que faz química, a 6s — para mais perto do núcleo, e a deixa mais firmemente presa (com energia mais baixa). Ao mesmo tempo, as camadas intermediárias (5d), mais blindadas pelas internas que encolheram, ficam frouxas e sobem de energia. Uma desce, a outra sobe, e o degrau entre elas espreme.

Sem relatividade, o degrau do ouro seria como o da prata — lá no ultravioleta, longe do que os olhos veem, e o ouro seria branco. Com relatividade, ele desce para cerca de 2,4 eV: exatamente luz azul. O ouro engole azul, devolve o resto, e o resto é amarelo.

Os primos do ouro

O mercúrio é líquido. O vizinho do ouro na tabela é o único metal líquido à temperatura ambiente: derrete a −38,8 °C, enquanto o vizinho de cima dele, o cádmio, derrete a 321 °C. O motivo é o mesmo encolhimento: no mercúrio, os dois elétrons de fora ficam tão presos ao átomo que quase não são emprestados para o “mar” de elétrons. Sem esse compartilhamento os átomos mal se ligam entre si — e um metal cujos átomos mal se seguram escorre.

A bateria do seu carro. A bateria de chumbo-ácido dá cerca de 2,1 volts por célula. Cálculos feitos com e sem os efeitos relativísticos mostram que cerca de 1,7 V dessa tensão existem porque os elétrons do chumbo são rápidos o bastante para a relatividade contar. Sem ela, a bateria daria uma fração do que dá.

A relatividade tem fama de só aparecer em buraco negro e nave espacial. Ela está na cor de uma aliança, no termômetro de mercúrio e na partida do seu carro.

Os números do episódio

O que o vídeo diz Valor De onde sai
prótons no núcleo do ouro 79 número atômico
velocidade do elétron mais interno 57,6% Zα = 79/137,036
“mais pesado” 22,4% γ = 1/√(1 − 0,577²)
camadas internas encolhem 18,3% raio ∝ 1/γ
degrau do ouro 2,4 eV engole abaixo de 517 nm
degrau da prata (e do ouro sem relatividade) 3,7 eV 335 nm — ultravioleta
fusão do mercúrio −38,8 °C o cádmio, acima dele: 321 °C
célula de chumbo-ácido 2,1 V ~1,7 V de origem relativística
constante de estrutura fina 1/137,036 α

Desafios

Desafio 1 · aquecimento

Um fóton de luz vermelha tem uns 650 nm. Qual é a energia dele em eV? Um metal com degrau de 2,4 eV o engole?

Ver a solução

eV, menor que o degrau de 2,4 eV: o fóton não tem energia para fazer o elétron subir, e o metal o devolve. É por isso que o vermelho, o laranja e o amarelo voltam do ouro.

Desafio 2 · pede uma ideia

Por que o efeito relativístico cresce tão depressa com o número atômico? Compare para a prata () e para o ouro ().

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Para velocidades moderadas, , que cresce como . A conta exata dá 6,5% para a prata e 22,4% para o ouro — quase quatro vezes mais, para um número atômico menos de duas vezes maior.

Desafio 3 · pede várias

O elemento com teria o elétron interno andando na velocidade da luz pelo modelo de Bohr. O que isso sugere sobre a validade do modelo — e por que existe uma discussão sobre “o último elemento” da tabela periódica?

Ver a solução

Com , o fator vai a infinito, o que não pode ser literal: o modelo de Bohr com correção relativística simples deixa de valer. A equação de Dirac trata o problema direito e empurra o limite (com o núcleo de tamanho finito) para perto de , onde o estado mais interno mergulha na região de energias negativas. É uma pergunta aberta e real da física nuclear e atômica — e ela nasce da mesma conta que pinta o ouro de amarelo.

Para ir além

  • O papel da relatividade na cor do ouro foi estabelecido em cálculos dos anos 1970; o artigo de revisão clássico é Relativistic effects in structural chemistry, de Pekka Pyykkö (Chemical Reviews, 1988).
  • O cálculo da bateria de chumbo-ácido com e sem relatividade foi publicado em 2011 (Ahuja e colegas, Physical Review Letters).
  • A mesma ideia de cor como “o que sobra” aparece no céu azul e no pôr do sol, em que a luz espalhada e a que atravessa dividem o espectro entre si.

No laboratório

As figuras deste episódio, em tamanho grande e com todos os controles.

Shorts deste episódio

Cortes verticais com a mesma narração — e as provas sem palavras que acompanham o tema.

1:47

Um elétron a 58% da velocidade da luz

Em breve no canal

1:58

Por que o ouro é amarelo e a prata não

Em breve no canal

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