QuímicaFísica

Por que o gelo flutua

No gelo, arrumação custa espaço: quatro vizinhos por molécula.

Quadro do vídeo “Por que o gelo flutua” Vídeo pronto — em breve no canal
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A exceção

Congele quase qualquer coisa e ela encolhe: ferro, chumbo, álcool, azeite, cera. O motivo é óbvio — esfriar é tirar agitação, e partículas menos agitadas se acomodam mais perto umas das outras. O sólido fica mais denso que o líquido e afunda nele. Chumbo sólido afunda em chumbo derretido; cera sólida afunda em cera derretida.

A água faz o contrário. Ao congelar, ela aumenta uns 9% de volume:

É por isso que o gelo flutua, que a garrafa estoura no congelador e que o cano racha no inverno. E não é um detalhe curioso: é uma anomalia, e a vida no planeta depende dela. A causa está na forma da molécula.

A molécula torta

Uma molécula de água é um oxigênio com dois hidrogênios presos nele — e ela não é reta: os dois hidrogênios fazem um ângulo de 104,5°, como um bumerangue. Isso importa porque o oxigênio puxa os elétrons com muito mais força que o hidrogênio (é mais eletronegativo): o lado do oxigênio fica com carga parcial negativa, e a ponta dos hidrogênios, positiva. Se a molécula fosse reta, essas cargas se cancelariam; torta, não cancelam — ela é um dipolo.

A ligação de hidrogênio

Junte muitas dessas moléculas, e o lado positivo de uma cola no lado negativo da vizinha. Essa atração tem nome: ligação de hidrogênio. Ela é uns vinte vezes mais fraca que a ligação que segura a própria molécula — uns 21 kJ/mol contra uns 463 —, mas muito mais forte que a atração entre moléculas comuns. É por isso que a água é líquida na sua cozinha: uma molécula desse tamanho, sem esse grude, seria gás à temperatura ambiente (o sulfeto de hidrogênio, H₂S, primo pesado da água, ferve a −60 °C).

E agora a peça decisiva: cada molécula de água tem exatamente dois hidrogênios para oferecer e dois pares de elétrons livres no oxigênio para receber. Duas para dar, duas para receber: quatro ligações, apontando para os quatro cantos de um tetraedro. Esse número quatro é o que constrói o gelo.

O cristal vazio

Na água líquida as ligações de hidrogênio existem, mas vivem se rompendo e se refazendo, bilhões de vezes por segundo. Nenhuma molécula consegue segurar as quatro por muito tempo; elas se amontoam de qualquer jeito, sempre desarrumadas — e coisa desarrumada se aperta bem.

Esfrie até congelar e as ligações param de se romper. Cada molécula segura as quatro, na geometria que elas exigem, e essa geometria é folgada: manter os quatro vizinhos nos cantos certos obriga as moléculas a ficarem mais afastadas do que ficariam no empurra-empurra do líquido. O cristal de gelo comum (o gelo Ih) é uma estrutura cheia de canais vazios em forma de hexágono — os mesmos hexágonos de um floco de neve, ampliados um milhão de vezes.

À esquerda, o favo do gelo; à direita, o líquido, com 9% mais moléculas na mesma área. A contagem é feita na figura. Arraste a agitação para ver o favo se desfazer.

A inversão é essa: no gelo, a arrumação custa espaço. O sólido é mais vazio que o líquido porque é mais organizado.

A ponta do iceberg

Um corpo flutua afundando até deslocar o próprio peso em água (o princípio de Arquimedes). Se um bloco de densidade tem volume e afunda uma fração , o empuxo é e o peso é ; iguale os dois:

Para o gelo no mar, 10,6% — é de onde vem “a ponta do iceberg”. Em água doce, 8,3%.

A fração de fora é a razão das densidades. Troque o material e a água.

Os quatro graus

E há uma segunda anomalia, ainda mais útil. A água não é mais densa a zero grau: é mais densa a quatro. Esfrie de 10 para 4 °C e ela fica mais pesada, como qualquer líquido; esfrie de 4 para 0 e ela começa a inchar de novo, porque as estruturas abertas do gelo já estão se formando lá dentro, aqui e ali, por instantes.

TemperaturaDensidade (kg/m³)
0 °C999,84
4 °C999,97
10 °C999,70
20 °C998,21

Isso decide como um lago congela. No outono a água da superfície esfria, fica mais pesada e afunda, revolvendo o lago inteiro — mas só até os 4 °C. Passou disso, a água fria fica mais leve e permanece em cima, e é ela que vira gelo. O gelo se forma no teto e fica lá, isolando o resto: embaixo, água líquida a 4 °C o inverno inteiro.

Uma coluna de 10 m de água no inverno. Com a água de verdade, o gelo se forma em cima e o fundo fica a 4 °C. Desligue a anomalia e o lago congela de baixo para cima.

E se fosse ao contrário?

Vale imaginar o contrário, porque é o argumento inteiro. Se o gelo afundasse, ele se formaria na superfície e iria para o fundo, onde o sol não chega para derretê-lo. O lago congelaria de baixo para cima e viraria um bloco sólido. Lagos e mares em latitudes altas congelariam por inteiro, e o pouco que derretesse no verão seria uma camada fina por cima. Não haveria onde nada aquático sobrevivesse ao inverno.

O mesmo 9% é uma das ferramentas que esculpem paisagem. A água entra na fenda de uma rocha, congela de noite e empurra as paredes com uma força enorme — o intemperismo por congelamento. Repita por alguns milhares de invernos e a montanha vira pedregulho.

Tudo isso desce de uma coisa só: a molécula de água ser torta e por isso conseguir segurar exatamente quatro vizinhas. Um ângulo de 104,5° entre dois átomos de hidrogênio é o motivo de existir peixe vivo embaixo de um lago congelado.

Os números do episódio

O que o vídeo diz Valor De onde sai
a água cresce ao congelar 9,1% ρ(água a 0 °C)/ρ(gelo) − 1
ângulo entre os hidrogênios 104,5° geometria quase tetraédrica
ligação de hidrogênio, comparada à O–H ~22 vezes mais fraca 21 contra 463 kJ/mol
vizinhos de cada molécula no gelo 4 2 hidrogênios dados + 2 pares recebidos
fração de um iceberg para fora (mar) 10,6% 1 − 916,7/1025
temperatura da água mais densa ≈ 4 °C máximo de ρ(T)

Desafios

Desafio 1 · aquecimento

Uma garrafa de 1 L cheia de água vai para o congelador. Quanto de volume o gelo tenta ocupar?

Ver a solução

Uns L. A garrafa não tem para onde crescer, e a pressão do gelo é suficiente para estourar vidro ou rachar canos de metal.

Desafio 2 · pede uma ideia

Um cubo de gelo flutua num copo cheio até a borda. Quando ele derrete, o copo transborda?

Ver a solução

Não. O gelo flutuando desloca exatamente o próprio peso em água; ao derreter, ele vira exatamente esse peso de água, que ocupa exatamente o volume que ele deslocava. O nível não muda. (Gelo de geleiras sobre terra firme é outra história: esse não estava deslocando água nenhuma, e por isso eleva o mar quando derrete.)

Desafio 3 · pede várias

O gelo de uma geleira derretendo no mar faz o nível subir um pouquinho mesmo quando já flutuava, porque ele é água doce e o mar é salgado. Explique por quê.

Ver a solução

O iceberg desloca uma massa de água do mar igual à dele. Ao derreter, essa massa vira água doce, menos densa que a salgada, e ocupa um volume ligeiramente maior que o volume de mar que ela deslocava: uns a mais. O efeito é pequeno comparado ao do gelo sobre terra, mas existe.

Para ir além

  • A água tem várias outras anomalias: capacidade térmica alta, tensão superficial alta, densidade máxima a 4 °C, dezenas de fases de gelo sob pressão. Todas descem das ligações de hidrogênio.
  • A mesma pergunta — “de onde vem cada átomo?” — vira conta de massa em a árvore é feita de ar.

No laboratório

As figuras deste episódio, em tamanho grande e com todos os controles.

Shorts deste episódio

Cortes verticais com a mesma narração — e as provas sem palavras que acompanham o tema.

1:15

O lago congela pelo teto

Em breve no canal

2:02

Por que o gelo flutua

Em breve no canal

Para assistir depois

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